Uso do celular na sala de aula: os impactos na aprendizagem e desafios da nova lei
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Seu filho já tem um celular? Ele consegue manter o foco nos estudos com o aparelho por perto?
Nos últimos anos, o uso de celulares entre crianças disparou. Entre 2015 e 2024, a proporção de crianças de 6 a 8 anos com celular próprio quase dobrou, passando de 18% para 36%. Entre os pequenos de 3 a 5 anos, o número triplicou, de 6% para 20%. O acesso à internet também aumentou exponencialmente, atingindo 82% das crianças de 6 a 8 anos. Os dados são do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).

Por outro lado, inúmeros estudos - como este publicado pela Universidade de Chicago, mostram que a simples presença do celular gera impactos na nossa capacidade cognitiva, o chamado "esgotamento cognitivo" (“brain drain", em inglês). E que o uso excessivo do aparelho, especialmente em crianças e adolescentes, afetam o cérebro e a concentração.
Com esse cenário, cresce a preocupação sobre os impactos do uso do celular na sala de aula. Em janeiro de 2025, foi sancionada uma lei que restringe o uso do celular nas escolas de Educação Básica de todo Brasil.
Por que proibir o uso do celular em sala de aula?
A nova lei busca garantir mais foco, melhorar o desempenho acadêmico e fortalecer a interação social entre os alunos.
Estudos indicam que o uso de celular em sala de aula pode comprometer a concentração e afetar o aprendizado. Ao mesmo tempo, escolas que já adotaram a restrição relatam avanços na participação dos alunos e na dinâmica escolar.
O desafio agora é encontrar um equilíbrio entre tecnologia e educação, promovendo um uso mais consciente dos dispositivos. Como pais e professores podem colaborar nessa transição? Como usar a tecnologia de forma produtiva sem comprometer o ensino?
Para responder essas e outras perguntas, a Fundação Roberto Marinho conversou com Katia Chedid, Gerente de Governança Educacional da Fundação Bradesco. Katia é educadora, pedagoga, psicopedagoga e especialista em Neurociência.

Fundação Roberto Marinho: Quais são os prejuízos na aprendizagem que o uso excessivo do celular traz?
Katia Chedid: O uso excessivo do celular reduz o foco de atenção e afeta diretamente o desenvolvimento das funções executivas – habilidades essenciais que aprendemos do nascimento até os 23 anos, aproximadamente. Isso inclui organização, planejamento, gestão do tempo, paciência para esperar a vez de falar e memórias de longa duração, que acabam não sendo plenamente desenvolvidas.
Mesmo com o celular próximo, notamos que o aluno fica inquieto e tende a mexer toda hora com medo de perder algo importante.
Katia Chedid
FRM: Quais são os principais desafios que as escolas enfrentam para garantir a adesão de alunos e educadores à nova lei de proibição do uso de celulares em sala de aula?
Katia: Antes mesmo da lei, no final de 2023 as escolas da Fundação Bradesco já haviam proibido o uso do celular em sala de aula. Para isso, trabalhamos intensamente com os pais, promovendo conscientização tanto de forma coletiva quanto individual, especialmente com alunos que mostraram mais resistência.
Nosso foco é conscientizar sobre o uso excessivo do celular e seus impactos. O aparelho em si não é um problema – ele é uma ferramenta importante. O risco está no abuso, que pode levar a consequências sérias como cyberbullying e a exposição da intimidade de crianças e adolescentes. É fundamental lembrar que a pegada digital é permanente: uma vez que algo é publicado, ele fica online para sempre.
FRM: Já é possível perceber benefícios concretos dessa proibição, como melhora na concentração e no desempenho acadêmico?
Katia: Sim, já recebemos muitos relatos positivos dos próprios alunos. Eles relatam que olham mais nos olhos, prestam mais atenção nas aulas e interagem mais entre si. O intervalo se tornou mais dinâmico, com sugestões deles próprios para incluir atividades como pingue-pongue, vôlei, peteca, biblioteca e rodas de leitura.
Muitos alunos dizem que agora conversam mais com os colegas, olham mais nos olhos e sentem que têm mais tempo.
Katia Chedid

FRM: Como os educadores podem lidar com a resistência dos alunos?
Katia: Uma boa abordagem é trazer o celular para a conversa, discutindo temas relevantes que fazem parte do dia a dia dos alunos, como o impacto das redes sociais, a idealização do corpo perfeito e a distorção da realidade online. Vale propor esse questionamento para os alunos: o uso do celular contribui para o crescimento pessoal ou gera mais ansiedade, frustração e comparação? Muitos jovens sentem que os outros estão sempre felizes e acompanhados, enquanto eles próprios perdem a socialização real. O diálogo é essencial para ajudá-los a refletir sobre esses efeitos.
O uso do celular contribui para o crescimento pessoal ou gera mais ansiedade, frustração e comparação?
Katia Chedid
FRM: A tecnologia desempenha um papel importante na educação atual. Como equilibrar a restrição ao celular com o uso de dispositivos digitais para fins pedagógicos?
Katia Chedid: A educação começa com os adultos. Definir limites para o uso do celular, estabelecer recursos para reduzir o tempo de tela e criar mecanismos de proteção são medidas essenciais. Claro, cada família tem sua dinâmica, mas precisamos refletir: estamos deixando nossos filhos sozinhos na internet? Quanto tempo de atenção plena realmente damos a eles? Muitas vezes, os próprios adultos não largam o celular nem na hora das refeições. Pequenos gestos fazem diferença, como dedicar 30 minutos por dia para brincar, ler um livro, montar um Lego ou apenas conversar. O equilíbrio começa com a nossa postura, somos exemplo.
Muitas vezes, os próprios adultos não largam o celular nem na hora das refeições.
Katia Chedid

Fundação Roberto Marinho: Que boas práticas podem ser adotadas para envolver as famílias nessa mudança e reforçar a importância da redução do uso do celular também fora da sala de aula?
Katia Chedid: Temos aproximado os pais da escola por meio de rodas de conversa e encontros. Mas a contenção do uso excessivo do celular precisa acontecer também em casa. Uma boa ideia é incentivar encontros presenciais com amigos, esportes coletivos, passeios ao ar livre e atividades extracurriculares, como teatro e visitas a museus. Programas como as orquestras nas escolas da Fundação Bradesco mostram como experiências culturais podem enriquecer o desenvolvimento das crianças, oferecendo alternativas saudáveis ao tempo de tela.