O impacto do teranóstico: desafios e perspectivas
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Realizado no âmbito do edital Comunicar Ciência, do projeto Ciência para todos, uma iniciativa da Fundação de Amparo e Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Canal Futura, da Fundação Roberto Marinho, este conteúdo foi desenvolvido pelos estudantes bolsistas Amira Romagnoli Al Dergham e Larissa Mansano de Souza, sob a orientação da professora Elba Cristina Sá De Camargo Etchebehere, da Universidade Estadual de Campinas.
O impacto do teranóstico: desafios e perspectivas
A qualidade de vida após o tratamento do câncer atrai interesse dos pacientes e da comunidade científica, especialmente com o avanço das terapias personalizadas. Essas abordagens possibilitam mudanças na forma como o câncer é diagnosticado e tratado, com impactos diretos na recuperação e no bem-estar daqueles que enfrentam a doença. Entre as inovações, destaca-se o chamado “teranóstico”, um tipo de abordagem médica que integra, na mesma etapa, “terapia” e “diagnóstico” – daí vem o nome.
O teranóstico tem oferecido um avanço significativo nos cuidados com pacientes oncológicos. Segundo José Barreto Campello Carvalheira, médico oncologista e pesquisador principal no CEPID CancerThera, "essa abordagem possibilita uma terapia oncológica personalizada, capaz de oferecer melhores respostas e com possibilidades de reduzir os efeitos colaterais do tratamento". Isso pode proporcionar maior controle sobre a doença, resultando em uma qualidade de vida superior durante o tratamento e em um aumento da sobrevida dos pacientes. Carvalheira e sua equipe realizam estudos sobre a relação entre as características clínicas, nutricionais e metabólicas e o prognóstico do câncer.
Ação dos radiofármacos no teranóstico
É importante destacar o papel central da medicina nuclear no teranóstico. Celso Dario Ramos, médico nuclear e pesquisador principal no CEPID CancerThera, explora o uso de tecnologias de imagem para otimizar diagnósticos e oferecer tratamentos mais precisos. Ele explicou que a medicina nuclear se baseia no estudo da distribuição de moléculas no corpo, como é o caso dos radiofármacos, que são formados por moléculas marcadas com isótopos radioativos para que possam ser rastreados após aplicação nos pacientes.
O pesquisador detalha o funcionamento do procedimento teranóstico: "Podemos usar um isótopo que emite uma radiação de alta penetração – como gama ou pósitron –, que atravessa o corpo e permite gerar imagens detalhadas [diagnóstico]. Se identificarmos que essa molécula se acumula em um tecido doente, como o câncer, podemos substituir essa radiação por uma de baixa penetração – alfa ou beta –, que descarrega uma energia maior no local, destruindo o tecido afetado [terapia], preservando os tecidos vizinhos".
Tudo isso pode parecer complicado, mas imagine que essas moléculas com radioisótopos, após aplicadas e distribuídas pelo corpo, podem se comportar como “carros com faróis especiais” em uma estrada escura. Esses faróis são os isótopos radioativos que emitem uma radiação capaz de atravessar o corpo e ser detectada por equipamentos, gerando uma imagem detalhada que mostre por onde essas moléculas estão passando. Se os médicos nucleares notam que esses carros se acumulam em uma “área problemática na estrada” (um tumor por exemplo), eles podem, numa próxima aplicação, trocar os carros por modelos que contenham faróis diferentes, tais que emitem uma radiação distinta: em vez de atravessar o corpo, libera energia apenas naquela região, solucionando o problema na estrada – ou seja, o tumor. Isso ajuda a atacar diretamente as células doentes, minimizando os danos ao restante do corpo e oferecendo um tratamento mais preciso e eficaz.
Desafios atuais e perspectivas futuras
O teranóstico não beneficia apenas os pacientes, que apreciam a redução dos efeitos colaterais quando comparado às terapias convencionais – como a quimioterapia. Há um entusiasmo crescente entre profissionais de saúde também. “Profissionais de saúde estão com expectativas sobre as possibilidades que o teranóstico pode proporcionar no tratamento do câncer", ressalta Carvalheira. No entanto, a implementação ainda enfrenta barreiras significativas.
Os principais desafios incluem a acessibilidade, o desenvolvimento de novos radiofármacos para aplicação teranóstica, a especialização de profissionais da saúde e a autorização do uso e da importação por órgãos reguladores. A manipulação de materiais radioativos ou nanopartículas exige uma infraestrutura avançada, com laboratórios e equipamentos de alta tecnologia, que, em geral, só estão disponíveis em grandes centros. Além disso, os custos elevados associados ao desenvolvimento e à manipulação dessas partículas acabam por limitar ainda mais o acesso a esses procedimentos. Outro ponto citado por Carvalheira é que a manipulação e a administração dos radiofármacos teranósticos e a interpretação dos resultados requerem médicos e outros profissionais da saúde especializados.
Outro obstáculo é o longo processo de desenvolvimento de novos agentes teranósticos, que envolvem desde a pesquisa básica até os testes clínicos, para garantir a segurança e a eficácia dos medicamentos, passando também pela regulação e pela aprovação por parte de órgãos fiscalizadores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Além disso, para uso no Sistema Único de Saúde (SUS), é necessária a análise e a recomendação favorável pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e decisão de incorporação e efetivação da oferta pelas secretarias do Ministério da Saúde.
Com a expansão da pesquisa em medicina nuclear com foco na abordagem teranóstica e o comprometimento de cientistas em desenvolver soluções cada vez mais eficientes, as expectativas de um melhor manejo do câncer estão crescendo. Embora os obstáculos ainda sejam muitos, o otimismo é justificado pela possibilidade de transformar o modo como se enfrenta a doença, trazendo uma nova gama de possibilidades tanto para pacientes quanto para profissionais da saúde.
À medida que as tecnologias e os tratamentos evoluem, há a necessidade de democratizar o acesso a terapias mais avançadas, oferecendo alternativas para pacientes em diferentes contextos socioeconômicos, o que pode contribuir para a redução das desigualdades no tratamento do câncer. Para isso, é valioso que haja mais pesquisadores sobre a tecnologia teranóstica, que, mesmo muito recente, é largamente promissora. “O que nós estamos fazendo no CEPID CancerTerra é apenas o começo de um longo processo. Esperamos que, futuramente, muitos novos pesquisadores continuem estudando nessa área por muitos e muitos anos”, projeta Ramos.



