Notícia: Teranóstico: uma via promissora contra o câncer

Teranóstico: uma via promissora contra o câncer

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Realizado no âmbito do edital Comunicar Ciência, do projeto Ciência para todos, uma iniciativa da Fundação de Amparo e Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Canal Futura, da Fundação Roberto Marinho, este conteúdo foi desenvolvido pelos estudantes bolsistas Amira Romagnoli Al Dergham e Larissa Mansano de Souza, sob a orientação da professora Elba Cristina Sá De Camargo Etchebehere, da Universidade Estadual de Campinas.

Teranóstico: uma via promissora contra o câncer

Já imaginou uma substância circulando pelo corpo de uma pessoa com câncer sendo capaz de não só identificar tumores, mas também destruí-los diretamente? Essa é a promessa do chamado “teranóstico”, uma abordagem que utiliza radiofármacos para fins diagnósticos e terapêuticos. O modelo teranóstico, cujo nome combina as palavras “terapia” e “diagnóstico”, vem ganhando cada vez mais espaço na área da oncologia e da medicina nuclear, beneficiando muitos pacientes ao redor do mundo. No Brasil, o Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera) está na vanguarda de estudos científicos nessas áreas. 

Financiado majoritariamente como um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o CancerThera é constituído por uma equipe com mais de 50 pesquisadores, vinculados ao Centro de Hematologia e Hemoterapia da Universidade Estadual de Campinas (Hemocentro/Unicamp), à Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) e ao Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo (IQSC/USP). As atividades do CEPID CancerThera estão sendo conduzidas por meio da “pesquisa translacional”, integrando os braços de pesquisa básico, pré-clínico e clínico de forma cíclica ao articular especialistas de distintas áreas, como onco-hematologia, radiofarmácia, radioquímica, física médica, química e as já mencionadas oncologia e medicina nuclear. 

Conforme destaca Carmen Silvia Passos Lima, médica hematologista e oncologista, pesquisadora principal e coordenadora da área de Inovação do CEPID CancerThera, a instituição “surge como um centro de pesquisa com potencial de inovação inequívoco” no desenvolvimento de metalofármacos e radiofármacos para os cuidados com pacientes oncológicos.

O uso da radiação no câncer

O fármaco é o princípio ativo, ou seja, a substância que possui o efeito terapêutico desejado de um medicamento. Por sua vez, um metalofármaco é um composto que combina um metal com um fármaco. Nessa junção, exploram-se as propriedades químicas únicas dos metais para a produção de medicamentos. Os metalofármacos são especialmente úteis no tratamento de doenças complexas, como o câncer, devido à capacidade dos metais de interagirem com alvos biológicos específicos e potencializarem a ação terapêutica.

Os radiofármacos são formados por moléculas que contêm isótopos radioativos ligados a elas. São denominadas isótopos as variações atômicas de um elemento químico que têm a mesma quantidade de prótons, mas distintas quantidades de nêutrons, fazendo com que suas massas sejam diferentes ou até mesmo tenham comportamentos nucleares variados. Um exemplo é o elemento químico iodo: o isótopo iodo-127 é encontrado na natureza estável; já o iodo-131 é um isótopo radioativo – um radioisótopo. Existem radiofármacos contendo iodo-131 que são utilizados de forma consagrada, há mais de meio século, para diagnóstico e tratamento de doenças, como o câncer de tireoide.

No diagnóstico, os radiofármacos ajudam a localizar tumores ao emitirem radiação detectável por equipamentos especiais de imagem. No tratamento, a radiação liberada pode destruir células tumorais de dentro para fora, tornando a terapêutica mais precisa e menos invasiva para o paciente oncológico. Embora o nome “radiação” assuste um pouco, as emissões são controladas pelos profissionais que manipulam e administram os radiofármacos, sempre considerando os níveis seguros para os seres humanos.

Como funciona o teranóstico?

No teranóstico, são realizadas duas etapas: na primeira, para fins diagnósticos, um radiofármaco com radioisótopo que emite radiação de baixa energia é administrado ao paciente e se liga às células tumorais. Então, os equipamentos especiais detectam essa radiação, criando uma imagem detalhada do tumor dentro do corpo do paciente, servindo como um mapa que o médico tem em mãos da distribuição do câncer; na segunda, outro radiofármaco com radioisótopo emissor de alta energia, agora para fins de tratamento, é administrado ao paciente, e essa radiação destrói as células tumorais. 

Carmino Antonio de Souza, médico hematologista, pesquisador principal e responsável pelo CEPID CancerThera, explica que o radiofármaco teranóstico é como um “Cavalo de Troia”. Essa é uma analogia à famosa tática militar presente na mitologia grega, descrita nos poemas “Ilíada” e “Odisseia”, de Homero, que narram os 10 anos de guerra entre gregos e troianos. Após um longo cerco à cidade de Troia, os gregos esconderam soldados dentro de um cavalo de madeira e o deixaram como “presente” para os troianos. Pensando que era uma oferta de rendição, os troianos levaram o cavalo para dentro dos muros da cidade, permitindo que os soldados saíssem dele e abrissem os portões para o exército grego, que, então, conquistou Troia. 

Comparando-se a estratégia do exército grego com a dos especialistas que usam o teranóstico como abordagem no câncer, a composição e o funcionamento do radiofármaco são o que o tornariam similar ao cavalo ofertado aos troianos. A célula tumoral (a cidade de Troia), por ter afinidade pela molécula que constitui o radiofármaco (o cavalo), liga-se a ele, “abrindo seus muros”. Uma vez ligado à célula tumoral, a radiação emitida pelo radiofármaco é capaz de ora diagnosticar, ora destruir o tumor – a depender do propósito médico. “A ideia é atacar o tumor de forma precisa e eficiente, minimizando o impacto nos tecidos saudáveis”, explica Souza. 

E como cada paciente é um paciente e cada tumor é um tumor, o modelo teranóstico se torna uma via personalizada de cuidados. “Vejo o teranóstico com grande potencial para a oncologia. Esperamos desenvolver produtos inovadores que impactem a vida e a qualidade de vida de pacientes oncológicos”, projeta Lima seu desejo para os futuros desdobramentos dos inúmeros estudos em desenvolvimento no CEPID CancerThera.

O longo e desafiador caminho de uma pesquisa

Apesar de sempre almejar os bons resultados, Souza salienta que os radiofármacos desenvolvidos no decorrer dos estudos do CEPID CancerThera podem não funcionar como esperado, apresentando baixa eficácia, alta toxicidade ou especificidade limitada. A pesquisa sobre o teranóstico no câncer é um processo complexo, podendo levar muitos anos – no caso do CEPID CancerThera, cujas atividades tiveram início em 2023, a projeção é de mais de uma década para a obtenção dos primeiros resultados consistentes, que possam impactar a sociedade positivamente. Portanto, o caminho de uma pesquisa pode ser marcado por frustrações e desafios, mas é essa variabilidade que, ao mesmo tempo, torna a busca incessante por tratamentos eficazes e seguros uma constante na área médica. 

Ainda assim, mesmo com tantos desafios, o horizonte do teranóstico no câncer é promissor. Se forem identificados novos radiofármacos teranósticos ou novos usos para aqueles já consagrados, que são as principais metas do CEPID CancerThera, Lima ressalta que os pesquisadores do centro poderão oferecer terapêuticas eficazes para pacientes com diversos tipos de câncer, como, por exemplo, os que têm possibilidades limitadas (os tumores cerebrais e das glândulas salivares) e os que não respondem às terapêuticas já padronizadas (os pulmonares, gástricos, colorretais e de cabeça e pescoço). Nesse sentido, por meio de seus estudos inéditos, o centro de pesquisa seguirá procurando maneiras de tornar acessível mais uma possibilidade terapêutica para todas as pessoas que enfrentam essa difícil doença e têm a confiança na ciência como um guia