Artigo: Adolescência: a vida sem cortes

A minissérie britânica da Netflix que virou assunto no mundo todo

Imagine uma série que te pega pela mão e não te solta por quatro episódios inteiros — como se você estivesse ali, dentro da história, sem respirar direito. Foi isso que a Netflix entregou em 2025 com Adolescência (Adolescence, no original), uma minissérie britânica que virou sensação global. O enredo? Um garoto de 13 anos, Jamie Miller, é acusado de matar uma colega da escola. Mas, diferente do que a gente está acostumado a ver, o foco aqui não é descobrir "quem fez isso", e sim entender "por que isso aconteceu".

E é aí que a coisa fica séria — e poderosa.

Sem cortes, sem filtro, só a verdade nua e crua

Logo de cara, a série já quebra as regras. Cada episódio é filmado em plano-sequência, ou seja, sem cortes aparentes. É como se você estivesse assistindo a uma peça de teatro encenada bem na sua frente, onde não dá pra respirar, sair pra tomar uma água ou desviar o olhar. Essa técnica, parecida com a usada em filmes como Birdman ou 1917, deixa tudo mais intenso. Você sente o tempo passando junto com os personagens. A angústia deles vira a sua.

A série também não está interessada em criar reviravoltas mirabolantes. O "culpado" a gente já conhece logo no começo. O que interessa aqui é o caminho que levou até aquele momento. Adolescência vai fundo nos porquês, nos silêncios, nas pequenas escolhas que acabam se transformando em avalanche.

Temas como masculinidade tóxica, o mundo sombrio da "manosfera" (aquele canto da internet onde ódio e misoginia se alimentam), violência nas escolas, solidão e redes sociais entram na roda — e não é de leve, não. A série joga luz onde muita gente prefere fingir que está tudo bem.

Críticos amaram. Parte do público... nem tanto

Os especialistas aplaudiram de pé. No Rotten Tomatoes, a série bateu impressionantes 99% de aprovação. Jornais como The Guardian disseram que era “quase perfeita”, enquanto a Forbes cravou: “obra-prima técnica”. Atores, roteiro, direção… tudo afinado como uma orquestra.

Mas entre o público, a coisa foi mais dividida. Teve quem amou e saiu devastado emocionalmente — teve até quem disse que ficou sem dormir depois de maratonar. Mas também teve quem achou arrastado, devagar demais. Alguns comentaram que pareciam "assistir a um documentário sem fim", outros disseram que os diálogos eram longos demais, quase como se fossem aquelas conversas que a gente evita por parecerem pesadas demais pra um dia comum.

Muito mais que um crime: um espelho da juventude digital

Se você acha que Adolescência é só mais um drama sobre crime juvenil, pense de novo. A série é, na verdade, um grande espelho. E, olha, não é daqueles espelhos de camarim com luz suave — é espelho de banheiro fluorescente às seis da manhã, mostrando tudo. O lado bonito e o que a gente prefere esconder.

Ela fala de redes sociais como arenas de comparação, onde os likes valem mais que abraços. De fóruns onde garotos aprendem — sem perceber — a odiar, competir, excluir. Mostra como a internet virou uma espécie de "quarto escuro", onde o adolescente entra em busca de pertencimento e sai, muitas vezes, mais perdido ainda.

Jamie Miller é um desses. Um garoto tentando entender quem é, em um mundo que vive gritando padrões inalcançáveis. Em vez de conselho, ele encontra memes agressivos e vídeos de "influencers" pregando ódio como se fosse liberdade.

A adolescência de hoje é um terreno minado — e digital

Crescer nunca foi fácil, mas agora parece que os obstáculos usam Wi-Fi. Se antes os dilemas eram sobre o primeiro beijo ou a roupa da festa, hoje são likes, cancelamentos e crises de ansiedade silenciosas.

As redes sociais viraram vitrine e tribunal ao mesmo tempo. A pressão por beleza, sucesso e performance escolar chega sem pedir licença — no meio da madrugada, em forma de stories alheios com gente “vencendo na vida”. Não à toa, os índices de ansiedade e depressão entre jovens estão lá no alto. É como se todo mundo estivesse correndo uma maratona invisível, sem nem saber direito a linha de chegada.

E tem mais: muitos adolescentes ainda não têm clareza sobre os perigos de se expor online. Postam tudo, compartilham sem pensar e depois não entendem por que estão sendo perseguidos ou julgados. É urgente ensinar não só a usar a tecnologia, mas também a se proteger dela.

A série fala também da influência da mídia, dos ídolos pop, dos “modelos de sucesso” que muitas vezes são apenas fachadas. Fala do peso das expectativas acadêmicas, que agora não vêm só da escola ou da família, mas também dos algoritmos que comparam tudo e todos o tempo inteiro.

Uma série que não passa batida

Adolescência não quer ser entretenimento de domingo à noite. Ela é mais como aquele filme que fica martelando dias depois. A série provoca, incomoda, faz pensar. E mesmo quem não gostou muito, acaba refletindo.

No fim das contas, Adolescência virou mais que uma série: virou conversa de mesa de bar, pauta de escola, tema de debate na internet. Ela mostra que crescer nunca foi tarefa fácil, mas que agora, com o celular na mão e o mundo nas costas, a adolescência virou um campo de batalha emocional e digital.

E, talvez, o maior mérito da série seja esse: nos lembrar de que os adolescentes não precisam só de regras, conselhos e notas boas. Eles precisam ser ouvidos. Precisam de diálogo. Precisam saber que, mesmo num mundo cheio de notificações, ainda existem adultos dispostos a ouvir — e a entender.

Para ampliar a conversa 

Um assunto tão complexo e multifacetado precisa seguir como pauta em diferentes contextos educativos: nas escolas, em casa, entre os próprios adolescentes e com a sociedade como um todo. Para ajudar a desdobrar o tema reunimos diferentes conteúdos produzidos pelo Futura em três conjuntos na Co.Educa.  

Saúde socioemocial das adolescências

Como as famílias podem ajudar adolescentes a enfrentar seus desafios?

A escola e os desafios das adolescências

 

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