“Somos a geração que deveria transformar não apenas o mundo através da educação, mas a própria educação”
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Peter Bishop e outros especialistas e educadores de quatro países se reuniram no Congresso Internacional de Educação do SESI-SP para debater sobre os caminhos possíveis para transformar a educação

Mais de 3 mil pessoas participaram do IV Congresso Internacional de Educação do SESI-SP, que aconteceu nos dias 11 e 12 de maio em São Paulo com transmissão online gratuita.
Com o tema “Educação que Transforma”, a programação reuniu neurocientistas, especialistas em políticas públicas, futuristas e, claro, educadores para debater sobre os desafios no ensino.
"O Congresso Internacional de Educação do SESI nasceu do compromisso institucional em reunir diferentes vozes do Brasil e do mundo para pensar caminhos, compartilhar experiências e fortalecer uma educação que forme sujeitos críticos, que promove a equidade e elabore respostas inovadoras para o desafio dos nossos tempos.", destaque Daniele Nascimento, Diretora da Faculdade SESI de Educação durante abertura do Congresso.
Sem a intenção de trazer respostas prontas, o debate gerou reflexões como: para onde vai o currículo quando a IA sabe mais fatos do que qualquer professor? O que significa praticar a docência antes de estar pronto? Como o cérebro aprende, e por que isso ainda não chegou à formação docente?
“Vivemos um tempo marcado por intensas mudanças sociais, culturais e principalmente tecnológicas. Em nossas vidas, um tempo que nos desafia diariamente a repensar práticas pedagógicas, a repensar nossos currículos, a ética docente e, sobretudo, o papel estratégico da educação como meio para a transformação da sociedade" , resume Daniele.
O que é o letramento em futuros e por que ele deveria estar nas escolas?
Peter Bishop, futurista norte-americano, fundador do movimento Teach the Future e professor por décadas na Universidade de Houston, abriu o congresso com uma provocação: a escola ainda ensina o mundo como se o futuro fosse previsível.

Ele usou uma comparação que marcou a platéia. Se Thomas Watson, CEO da IBM em 1915, fosse transportado para um escritório de 2026, não reconheceria nada. Mas se John Dewey, educador da mesma época, aparecesse numa sala de aula atual, entenderia tudo imediatamente. A escola mudou pouco. O mundo, muito.
“Se você quer mudar o mundo, o primeiro lugar onde olhar é para si mesmo. Não de forma crítica ou destrutiva, mas olhando com honestidade o que estamos fazendo bem e o que precisa mudar.”
Sobre inteligência artificial, Bishop foi direto: a escola não pode competir com a IA em fatos. Por isso, defendeu uma mudança no foco do currículo, das informações para as habilidades, e das respostas certas para a capacidade de lidar com a incerteza.
“Por que estamos ensinando tantos fatos para os alunos? A IA sabe tudo que está nos livros didáticos. E entrega em segundos. Pedir ao aluno que replique isso é uma batalha injusta.”
Bishop apresentou três tipos de futuro que deveriam ser ensinados nas escolas: o futuro esperado, o futuro alternativo e o futuro preferido. Para ele, ensinar estudantes a navegar entre esses três níveis é uma habilidade essencial que nenhuma disciplina ensina hoje.
“Transformação não é para os frágeis de coração. É para os corajosos e os ousados. Somos a geração que deveria transformar não apenas o mundo através da educação, mas a própria educação.”
O que a neurociência tem a dizer sobre como os estudantes aprendem?
A mesa “Repensando a Formação Docente sob a Lente da Neurociência” reuniu a pesquisadora belga Veerle Ponnet e a pedagoga e psicopedagoga Ana Luiza Neiva do Amaral.
Ponnet começou com uma confissão: ela própria foi o “pesadelo” de todo professor. Não gostava de estudar. Depois de viver em seis países e ensinar profissionais de 52 deles, entendeu por quê: os professores não sabiam nada sobre o único instrumento que importa para o aprendizado, o cérebro.

“Não aprendemos o que não queremos aprender. É simples assim. Se não há motivação, podemos praticar o que eu chamava de aprendizado bulímico: absorvo antes da prova, vomito na prova, e duas semanas depois esqueci tudo, porque não havia emoção envolvida.”
Ela conduziu uma dinâmica com a platéia usando as mãos para representar as áreas do cérebro e explicou o que acontece quando o estresse desconecta o córtex pré-frontal, responsável pelas decisões, do restante do sistema. Professores que entendem esse processo podem apoiar melhor os alunos em momentos de ansiedade.
“O aprendizado é aprimorado pelos desafios, mas é inibido pelo estresse. Todos os cérebros são únicos. E o cérebro é social: aprendemos mais quando sentimos que estamos todos interessados na mesma coisa e motivados a avançar.”
Ana Luiza Neiva do Amaral, pesquisadora do Departamento Nacional do SESI, conectou a neurociência ao debate sobre formação docente e defendeu uma distinção central:
“Quando informo, transmito dados e conceitos; quando educo, transformo. Educação tem a ver com transformação.”

Ela alertou ainda para o “ensino dos excessos”: currículos extensos, muitas atividades, pouco tempo para aprofundamento. “Essa fórmula que a educação vem insistindo vai na direção oposta a tudo que a neurociência preconiza.”
Por que a prática deve ser o centro da formação de professores?
No segundo dia, Ruth Arce, representante da OEI, e Selma Garrido Pimenta, professora titular sênior da USP, debateram a residência educacional e o estágio supervisionado como núcleos centrais da formação docente.

Para Ruth Arce, a discussão não é sobre incluir mais prática na formação: é sobre reconhecer que a prática é a formação.
“A prática é a espinha dorsal da formação docente. Está no centro e é o coração da profissão”, afirmou. E completou: “Desde o momento em que o professor entra na escola, ele toma decisões o tempo todo. Isso exige uma formação sólida, reflexiva e conectada à realidade.”
Selma Garrido Pimenta propôs uma distinção entre o estágio como prática e o estágio como investigação: “O estágio não é apenas a prática, mas a teoria que estuda as práticas e permite compreender a complexidade do trabalho docente.” E reforçou que ensinar é um ato coletivo: “Nenhum professor garante sozinho uma educação de qualidade sem o apoio do coletivo escolar.”
Selma ainda alertou sobre a padronização excessiva:
“Não podemos substituir a capacidade crítica e reflexiva dos professores por plataformas que transformam o docente em mero transmissor de conteúdos.”
A importância da conexão humana em tempos de IA
Valdenice Minatel, diretora do Colégio Dante Alighieri e integrante do Consed da Fiesp, apresentou a Masterclass “Aprender 4.0” e defendeu que o próximo passo da educação precisa colocar saúde emocional, ética e conexão humana no centro.
“A inteligência humana é o nosso marcador civilizatório”, afirmou. E alertou: “Se a tecnologia não for utilizada dentro de um princípio de equidade, ela só ajuda a aumentar esse abismo que nós temos.”
A conferência de encerramento ficou com José Moran, doutor em Ciências da Comunicação pela USP. Ele começou lembrando as expectativas do final do século XX: “Acreditávamos que tudo mudaria rapidamente. Imaginávamos uma escola muito mais híbrida, flexível. Já estamos em 2026 e a distância entre o que prevíamos e o que aconteceu ainda é enorme.”

Ele identificou três grandes rupturas tecnológicas: a internet, os smartphones e a IA generativa. Mas o que mais o preocupa não é a velocidade das mudanças tecnológicas, e sim o fato de o desenvolvimento humano e emocional não ter acompanhado esse ritmo.
"Achei que evoluiríamos também como pessoas, que saberíamos responder melhor aos desafios e levar uma vida mais equilibrada, mais autônoma. E nisso não avançamos tanto. Somos um país curioso tecnologicamente, aberto às novidades, mas também extremamente ansioso, inseguro e dependente desse mundo digital", observou.
Ao encerrar, deixou uma reflexão sobre sentido na educação:
“Grande parte das pessoas passa pela vida sem encontrar significado no aprender. Precisamos construir uma educação viva, em que cada estudante descubra propósito no conhecimento.”
O que as políticas públicas ainda não resolveram na educação brasileira?
Maria Inês Fini, doutora em Educação, ex-presidente do INEP e idealizadora do ENEM, falou sobre a evolução das políticas públicas educacionais e o que ainda falta para que os dados gerados pelos sistemas de avaliação se transformem em mudança real.
“Nós melhoramos demais as análises estatísticas, mas falta o passo da interpretação dos resultados”, avaliou.

Ela sintetizou sua visão sobre os limites da tecnologia aplicada à educação com uma frase direta:
“Não existe inteligência artificial que substitua a inteligência humana. Informação não é conhecimento, memória não é inteligência e tecnologia não é pedagogia.”
Quem aprende transforma: o protagonismo dos estudantes
Além das palestras, o congresso reservou espaço para os próprios estudantes. O III Fórum das Juventudes reuniu alunos do Ensino Médio da rede SESI-SP para apresentar propostas de inovação. A Jornada STEAM e o Makerthon abriram espaço para experiências práticas de ciência, tecnologia, arte e criatividade.
O Prêmio SESI-SP de Educação reconheceu professores e projetos de destaque da rede SESI-SP e de redes municipais parceiras. As iniciativas premiadas abrangeram inclusão, pensamento crítico, ancestralidade, ciência e combate à desinformação.
Ao longo dos dois dias, um mesmo tema veio à tona: a educação que transforma não é aquela que entrega mais conteúdo, mas a que muda a relação do estudante com o aprender. A conexão humana é o que torna esse aprendizado possível. E para que ela aconteça, vai muito além de tecnologia. São necessários professores formados para pensar, não apenas para replicar, currículos que ensinam a lidar com a incerteza e políticas públicas que cheguem de fato ao chão da escola.
